Relato de gravidez.

Esse é o relato de gravidez que escrevi para publicar antes do relato de parto, mas que, não sei como, nunca foi ao ar.

Em 19 de dezembro de 2017 me descobri grávida.

Estava com 6 semanas e meu corpo dava sinais de que um teste de gravidez não seria desperdiçado.

Fazia exatamente um ano que eu tinha parado o anticoncepcional. Depois de anos num tratamento tradicional para SOP (síndrome dos ovários policísticos), dia 18 de dezembro de 2016 eu decidi, junto com a ginecologista que estava me acompanhando, parar com a pílula, visto que os exames mostraram meus ovários livres de cistos.

Sempre falei que gostaria de começar a tentar engravidar depois que completasse 30 anos e em julho de 2017 eles finalmente chegaram. Depois disso Augusto e eu começamos a conversar sobre a possibilidade de começar a colocar o plano em ação. Como sempre ouvi dos médicos que por conta da SOP eu teria um pouco de dificuldade em engravidar, fiquei com isso na cabeça e acreditava que esse processo seria mais longo. Tanto que no final de 2017 eu estava pensando em retornar ao ginecologista para refazer os exames e ver se ainda estava com os ovários “limpos”.

No final outubro de 2017 fiz uma cirurgia corretiva no septo e após o período de repouso iria atrás de marcar com o ginecologista pra ver melhor essa questão toda dos ovários e afins. Daí que não deu tempo. Não consegui datas para novembro e dezembro é sempre um mês meio corrido e curto e então eu adiei essa ida ao médico para janeiro de 2018.

Mas nem tudo é plano definitivo, muitas coisas são surpresas.

Em 19 de dezembro de 2017 me descobri grávida. Estava com 6 semanas e meu corpo dava sinais de que um teste de gravidez não seria desperdiçado.

A descoberta veio acompanhada de incerteza, apesar de saber que falsos positivos não acontecem… será que eu estava realmente grávida? Fiquei besta, Augusto ficou besta. Não tivemos reação de filme, nem de youtuber. Não teve choro nem comemoração explosiva de felicidade. A gente ficou feliz, claro, mas também anestesiados. No dia seguinte fiz o exame de sangue e descobri que eu não estava apenas grávida. Pelo resultado, eu estava super grávida.

O primeiro trimestre foi muito estranho. Eu suspeitei a gravidez pois meu corpo dava sinais, mas depois da confirmação, eu comecei a sentir todos os sintomas possíveis. Dor na lombar, enjoos, muita fome, seios doloridos, dor de cabeça… tudo mesmo. Ao mesmo tempo, é algo tão interno e abstrato que foi muito difícil me conectar com o que estava rolando. Além disso, eu tive várias doenças nesse tempo que me distraiam do que fato de que eu estava gerando uma vida. Tive conjuntivite, sinusite, infecção de urina… como é que se conecta com algo que não se vê e não se sente? Eu achei bastante difícil. E apesar da felicidade de alcançar algo que foi desejado, existiam muitas inseguranças.

Dia 05 de janeiro de 2018 a situação se tornou mais real. Fizemos a primeira ultrassonografia – de datação – para vermos o desenvolvimento do embrião. E que coisa doida. Sou simplesmente incapaz de descrever como é ver a imagem na tela e então ouvir o coração daquilo que foi tão desejado e é tão bem vindo e que se tornará a criança que você irá criar. O exame indicava que naquele momento estava com 08 semanas e 4 dias de gravidez. Essa informação era importante pois seria a partir dela que calcularíamos a data da concepção e a data provável do parto. Saí do exame trançando as pernas. Parecia bêbada. Não conseguia acreditar. Quando entrei no vestiário para me trocar, aproveitei para sentar e chorar um pouco. Era muita emoção provocada por algo que nem parecia um ser humano ainda, mas que possuía um coração que batia tão forte quanto qualquer outro.

Imagem no nosso segundo ultrassom, onde vimos pela primeira vez nossa pessoínha em formato de pessoa

Algo que havia sido acordado com o Augusto, antes mesmo de engravidar, foi o desejo de não descobrir o sexo do bebê durante a gravidez. Passamos todo o tempo em que estive grávida usando todos os gêneros possíveis para nos referirmos à nossa cria. Houve muita curiosidade em vários momentos, mas confesso que é relativamente fácil não descobrir. Essa decisão, apesar de levantar algumas sobrancelhas, sempre foi bastante respeitada por nossa família, amigos e conhecidos.

Outra coisa que tinha para mim é que eu gostaria de ter um parto vaginal, de preferencia natural, mas para isso me vi diante de uma escolha. Qual modelo de assistência eu gostaria de ter? Sempre achei que um parto domiciliar é onde eu me sentiria mais acolhida e à vontade. Ao mesmo tempo, apesar de não gostar de hospitais, sabia que com a equipe certa, o hospital seria um lugar onde eu me sentiria bastante segura. Desde o início eu sabia que teria opções maravilhosas, não importava qual modelo de assistência eu escolhesse. E depois de muito pensar… mas muito mesmo, eu optei pelo modelo hospitalar, com um obstetra humanizado, que trabalha bem com doulas e oferecia a opção de acompanhamento pré hospitalar com enfermeiras obstétricas. Assim meu tempo no hospital, indo tudo bem, seria mínimo.

Optei também por fazer o acompanhamento pré-natal no SUS. Aqui em Brasília o acompanhamento é feito por um médico de família e/ou enfermeira no centro de saúde. Não tive problemas em marcar minhas consultas, nem nos atendimentos e o acolhimento sempre foi ótimo, apesar de eles, por protocolo, considerarem minha gravidez uma gestação de alto risco pura e simplesmente por conta do meu IMC. Meu médico particular (humanizado e atualizado nas evidências científicas) nunca direcionou esse olhar ao meu acompanhamento. E pelo SUS também não tive acompanhamento de alto risco, porque esse atendimento é feito no hospital de referência para a região onde moro e eu deveria esperar eles me chamarem, porém isso nunca aconteceu.

Sobre meu peso, por eu já ter iniciado a gravidez obesa, ele foi sim um fator a ser observado, mas das primeiras semanas até o dia do nascimento da minha cria meu peso se manteve inalterado, com uma flutuação básica, mas sempre em torno do mesmo valor. Minha alimentação foi observada, mas nenhuma restrição foi imposta. Comia de tudo e evitava exageros, assim como sempre fiz não grávida. Foi incrível a sintonia que tive com minha cria na barriga. A gente trabalhava em equipe para que tudo corresse bem. E durante toda a gestação não tive nenhuma intercorrência, nenhum episódio de pressão alta, nenhum inchaço, nada. Houve, sim, um susto. Com 32 semanas realizei o exame da curva glicêmica e num dos resultados minha glicemia deu ligeiramente acima do limite. O que poderia ser diabetes gestacional e isso significou que até o final da gravidez eu deveria medir minha glicemia em jejum ao acordar e antes e depois das refeições, mas ela sempre se mostrou controlada e dentro do esperado… além de outros indicadores da diabetes gestacional estarem ausentes. Minha gestação continuava uma gravidez de risco habitual.

Retomando… O segundo trimestre, considerado a lua de mel da gravidez, demorou para pegar aqui. Foi só depois de 18 semanas e a ultrassonografia morfológica que eu comecei a me acalmar e me conectar com o que estava rolando no meu ventre. Eu tinha bastante medo. Medo de parada de evolução na gestação, medo de algum problema congênito, medo até de minha cria ter desenvolvido lábio leporino. Esses medos são comuns, mas com minha ansiedade, foi uma combinação que me trouxe muita angústia.

O segundo trimestre tornou as coisas mais “palpáveis”

Até que com 20 semanas eu comecei a sentir algo lá no baixo ventre. Era vida o que eu sentia. Eram os movimentos da vida que eu gerava e foi isso, essa mudança do abstrato para o físico, que me ajudou a superar a angústia que eu vinha sentido. Os movimentos foram só se intensificando, conforme eu via minha barriga – de grávida – crescer cada vez mais.

Duas coisas desagradáveis que começaram no primeiro trimestre ainda me acompanhavam: a dor na lombar e enjoos e episódios de vômito. O enjoo era matinal, os vômitos vinham sem aviso a qualquer hora do dia e a dor na lombar era uma constante, apesar dos exercícios que minha fisioterapeuta uroginecológica havia me passado para aliviar.

Com 30 semanas veio outra decisão. Minha doula, uma amiga querida, não poderia mais me acompanhar e me recomendou o acompanhamento de outra doula que eu sabia ser incrível, mas será que seria incrível para mim? O acompanhamento da doula envolve muita conexão e eu acreditava que a doula não deveria ser perfeita apenas para mim, mas para o Augusto também, já que ele me acompanhava de perto e tão intensamente desde o momento da descoberta da gravidez. Depois de um encontro com ela, percebi que sim, ela seria incrível para a gente também.

O terceiro trimestre começou com o sentimento que deveria ser do segundo trimestre se arrastando até o final da gestação. Era um gás, uma vontade de ajeitar tudo… mesmo com a dor na lombar, que também se tornou uma dor pélvica maluca – que meu deus pai, o que era aquilo? -. Eu repetia para mim mesma que doía naquele momento, para não doer mais pra frente.

Com 30 semanas também fizemos nosso chá de bebê aqui em Brasília. Com 31 semanas fomos para São Paulo fazer o chá de bebê com a família e amigos de lá. Como é gostoso compartilhar esses momentos com pessoas queridas! Receber o carinho que recebemos nesses eventos foi algo maravilhoso.

Chá de bebê em Brasília

De 33 a 35 semanas, lavamos tudo e começamos a preparar o lounge da criança, já que foi nosso plano não deixar um quarto pronto para ela nesse início de vida, pois ela não usaria e também terminamos de montar o enxoval básico que planejamos.

Em 21 de julho completei 31 anos e comemorei ao lado de mulheres maravilhosas e do Augusto no meu chá de bênçãos, um dos momentos mais especiais da gravidez, com certeza. Recomendo a todas as mulheres que tenham um chá de bênçãos e usem o evento para fazer a pintura de barriga. É algo tão especial, que é difícil de descrever. Foi muito especial ter minha mãe, que veio de São Paulo para o evento e acabou ficando de vez, já que eu havia pedido que ela ficasse agosto inteiro, com a data provável do parto bem no meio de agosto, para me acompanhar nesse período.

Mulheres: tenham um chá de bençãos. Pintem suas barrigas!

A reta final se apresentava, logo o bebê estaria a termo e nós conheceríamos quem ficamos todo esse tempo esperando. Mas não sem surpresas. Com 37 semanas, minha doula incrível precisou passar por uma cirurgia e nos avisou que talvez não poderia me acompanhar. Lá estava eu mais uma vez. A doula sem doula. Mas dessa vez foi mais simples. Estava fazendo o curso de gestantes da Rede Ocitocina e além de conhecer e já ter trabalhado com a Adele e conhecer suas parceiras e confiar no trabalho da equipe, resolvi contrata-las para o acompanhamento nas últimas semanas que antecederam o parto.

Dia 01 de agosto de 2018, foi meu primeiro dia de licença maternidade, depois de um julho um tanto sofrido com muitas dores na pelve e na lombar, onde alguns dias me custava ficar sentada, mas que eu encarei com força e fui trabalhar até o final. Aproveitei e continuei, junto com o Augusto a ajeitar as coisas pra cria. Meu pai e meu irmão André tinham vindo para cá no final de julho trazer, finalmente, os sofás que eram da minha vó Eva e a gente precisava reorganizar algumas coisas pela casa. Acertar alguns detalhes.

Dia 02 de agosto minha mãe foi para São Paulo resolver algumas coisas do trabalho e planejava voltar dia 07, um bate-e-volta para depois ficar o resto do mês aqui sem preocupações, mas não deu tempo. Dia 05 de agosto de 2018, com 38 semanas e 6 dias, minha cria resolveu que a gestação iria acabar.

 

Essa história continua no relato de parto.

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